06 dezembro 2007

Paul, Casa do Escritor e... Oriente

O vale do Paul é tido como um dos lugares mais belos de Cabo Verde. Pela sua orografia, pela exuberância da sua vegetação... penso que se justifica em pleno este rótulo.
Paúl esconde encantos, belezas, um potencial turístico enorme. Paul tem história, tem (agri)cultura...Paul encanta, por isso muitos que por lá passam, cantam-no.
E não será, certamente, por acaso que o "berço de Januário" poderá vir a albergar a Casa do Escritor. A ideia já foi lançada e, aos seus promotores - Vera Duarte, e AMIPAUL - Sinta10 levanta um aplauso
e aproveita para propor uma viagem diferente ao concelho.


O Oriente no Paul

Ao reparar nesta foto me veio à memória a Grande Muralha da China. É certo que por esse caminho não chego a nenhuma muralha. Antes, esta vereda, que até parece transportar-nos para o além, leva-nos até algures em Santa Isabel, no concelho do Paul.
Não sei porquê, mas não consigo deixar de associar esta imagem à majestosa Grande Muralha. Salvaguardando, claro, as proporções.

E, já agora...

que dizer deste exemplo de interculturalidade?

O autor da 1ª fotografia é a personagem que agora aparece nesta 2ª. De nacionalidade chinesa, Kayo esteve em missão no Paul durante cerca de 5 meses, ao serviço do Corpo da Paz. Mas não vou falar dela. Falo da foto, da riqueza expressiva que a mesma encerra.

A cobertura da casa, as paredes em pedra seca, a porta e a sua fechadura, a escada de pau e o sôrron faz-nos mergulhar num Santo Antão profundo. Ainda, num primeiro olhar este mergulho no profundo poderá ser bruscamente interrompido pelo “elemento estranho” – o chinês. Mas, um olhar mais demorado desvenda, em vez de um “ruído”, um exemplo de perfeita comunhão de povos, de integração onde eu te dou e tu me dás. Os chinelos que aparecem em cima da escada são um produto chinês, trazido pelos comerciantes. O nativo comprou-os usa-os no dia-a-dia. De tanto utilizá-los, teve que aplicá-los alguns pontos para aumentar a sua durabilidade. E é provável que tenha usado linha de cisal preparada a partir da planta que cresce nos cumes das montanhas da ilha.
Já, o sorron nas costas da chinesa é bem nosso. Só não sei se nessas costas o mesmo terá seguido viagem até ao oriente. Quem sabe!?

14 novembro 2007

PASSAGEM: SOS na primeira pessoa

"Chamo-me Passagem, sei que sou um ponto de passagem obrigatória para aqueles que visitam Santo Antão. Tenho piscina de água doce, águas cristalinas que correm por entre inhames e hortelãs, enfim tenho uma paisagem que, modéstia à parte, é espectacular.
Ao longo da minha vida já recebi centenas e mais centenas de caravanas que vêm passar um dia diferente, contemplando meus encantos. Já deixei maravilhado milhares de pessoas, locais e forasteiros.
Mas estou revoltado: é que já estive bem melhor. A minha piscina, meu ex libris, está feinha, meus canteiros já não têm ervas verdejantes. Porque será que estão e destratar-me desta forma, eu que já servi tanta gente, sem olhar a quem!!!"

Don't forget me, please! I'm (was) so nice!

04 novembro 2007

A Ordem do Dragoiro (coisas escondidas de Santo Antão II)

Continuo a reivindicar o direito de Santo Antão ser (também) considerada a ilha do dragoeiro. Quero ver os folhetos turísticos sobre a ilha dizendo que é (também) ilha que alberga essa planta milenar e endémica de Cabo Verde
Ainda espero ver na capa de uma revista tipo FRAGATA, numa edição sobre Santo Antão, uma grande fotografia do dragoeiro santantonese, essa planta tão simbólica... que, inclusive, dá nome a um tipo de condecoração, das mais prestigiantes de Cabo Verde.

Dragoeiros no Vale do Paul
Fotos: BCN

03 novembro 2007

À propósito de caminhada... (à ti, Paulino)

Ao ler aqui a descrição de uma caminhada pela ilha de Santiago, veio-me à memória uma caminhada que fiz no mês passado na ilha de Santo Antão. Itinerário: Cova – Vale do Paul. Peço-te licença, Paulino, para reformular a tua afirmação e dizer: “definitivamente estas ilhas… são inspiradoras!”

Éramos três. Saímos de casa as 7 da manhã. De mochila às costas apanhámos uma viatura na vila da Ribeira Grande e rumámos ao Planalto Leste. São cerca de 30 minutos de carro, sempre a galgar montanha. A brisa fria e as gotículas de orvalho que nos batem no rosto fazem-nos antever um dia ideal para aventura - sem sol ardente. À medida que nos aproximamos da floresta do Planalto Leste, os rostos começam a franzir. Uma chuvinha miudinha, cada vez mais constante, deixa-nos receosos: “hum, parece que a chuva nos vai impedir a caminhada”. Mas não, ao aproximarmo-nos da Cova notámos que a chuvinha só se confinava à parte densa da Floresta. Descemos da viatura. Esta curva-se pra direita e prossegue a sua viagem rumo ao Porto Novo. Nós, voltando p'ra esquerda, começamos a descida rumo à Cova. Pelo caminho cruzamos com um conjunto de burros que, orientados por alguns garotos, cumprem mais um dia de tarefa rotineira: o transporte de água. Após admirar cada detalhe da paisagem daquela que é a cratera de um vulcão extinto, continuamos a nossa caminhada. Já estamos a subir o outro lado da Cova e daqui a pouco, quando chegarmos ao cume, conseguiremos ver o vale do Paul, lá em baixo.
Passam alguns minutos e… hups! Está o vale do Paul lá em baixo. Uma instantânea curtina de nuvem tapa-nos a visão (até parece que alguém está a fazer uma queimada rocha abaixo! Mas não, é “fumo” natural). Dez minutos de descanso, tempo suficiente para fazer um pequeno lanche. De onde estamos, de um lado vemos o interior da Cova - que já deixamos para trás - e do outro, o Vale do Paul – que nos aguarda. Estamos debaixo de um arbusto e de repente somos molhados por alguma gotas de água bem grossas. É chuva? Não, é que veio uma neblina e ao passar pela árvore gera água. Que maravilha!!!
Já são quase 10 horas. Vamos descer. O caminho é bom, embora algo inclinado. Cabo de Ribeira está à vista, ao fundo. Ouve-se murmúrios, sons de animais e de actividade humana. Vê-se canaviais, cafeeiros, bananeiras, macieiras… a descida está aprazível e agora muito raios de sol começam a despontar por entre nuvens errantes.
Atingimos 45 minutos a descer e estamos prestes a encontrar as primeiras casas. São os primeiros contactos com as gentes do Vale do Paúl. Agricultores a trabalharem a terra, água a correr por levadas, animais a pastar, cheira-se a terra molhada, à cinza de trapiche, à mel de cana, há tanques cheios de água... vamos dar um mergulho no Tanga (um dos maiores tanques da ilha). Estamos a descer vale abaixo, já deixamos o povoado de Cabo de Ribeira e o Tanga já está bem próximo. Chegámos! O tanque está cheio, parece um mar calmo. Alguns garotos vão dando seu mergulho. Apressamos a dar o nosso também. A água está fresquinha! Parámos uns 30 minutos e por altura da nossa retirada já havia muita gente no local.

A descida prossegue, estamos a atravessar a Passagem – um dos cartões de visita do Vale de Paúl, ou mesmo da ilha. Primeira desolação da caminhada: este outrora joia da ilha está em decadência, está abandonado… incompreensivelmente! A piscina está estorricada, parece que há muito tempo não viu água (entretanto um forte caudal passa na ribeira ao lado). Os canteiros onde antigamente havia ervas verdejantes estão desertos, só se vê terra, no entanto as flores selvagens das buganvilhas, estas persistem, talvez por não dependerem tanto do cuidado dos humanos. Bem, prosseguimos a caminhada pois Passagem não está tão atraente como antigamente. O próximo ponte de passagem é a cachoeira.
Já são 14 horas. Passando por canaviais, inhames e outras plantas caminhamos em direcção à cachoeira. A vegetação é densa. As correntes de água são constantes. Cachoeira está um paraíso! Deixamo-nos ficar por cerca de uma hora. Ao som do barulho das quedas de água, almoçamos. O Fefa e o Ady, dois caminhantes que encontramos pelo caminho quando subíamos a Cova, estavam connosco e convidamo-los a almoçar. Só que não havia pratos para eles. Que solução? Serviram o seu petisco em folhas de inhame. Imagine que comunhão perfeita com a Natureza!

Deixamos a cachoeira rumo à vila das Pombas, que é onde teríamos que apanhar o carro rumo ao ponto de partida – Ribeira Grande. Pelo caminho, muita vegetação, muita admiração, e ainda muita estrada por andar. Pudemos desfrutar da beleza de um dos recantos mais lindos do país; ver uma riqueza paissagística onde abunda cana de açúcar, bananeira, mangueira, papaeira, inhame, e até dragoeiro (essa tal planta endémica de Cabo Verde, que só existe em São Nicolau (?)) Mas também vimos mulheres a lavarem roupa nas águas que correm pelas ribeiras (imagem hoje em dia pouco comum); vimos meninos a saltarem, de cabeça, de grandes altitudes para depois murgulharem como peixe no fundo dos tanques (como o Groguinha lá no tanque de Marrador, Paulino; ouvimos o chirlear de pardais, sentimos o cheiro da terra fertil, enfim…

Chegámos à Vila das Pombas por volta das 5 da tarde… Era a segunda vez que fazia a mesma caminhada, mas foi mais uma descoberta, onde se voltou a respirar a Natureza, sentir o pulmão da ilha, viajar no tempo, viver a vida…

“Definitivamente estas ilhas… são inspiradoras!"

27 outubro 2007

Sete maravilhas de Sintadez

Há dias lia num jornal da nossa praça uma proposta das sete maravilhas de Cabo Verde. Entre algumas para mim consensuais e outras muito discutíveis, lá já estava eu a fazer a minha lista. E, como não podia deixar de ser, elaborei a minha proposta das sete maravilhas de Sintadez. Ei-la:

1 - Vale do Paúl
2 - Cova
3 - Topo de Coroa
4 - Fontaínhas (incluindo sua via de acesso)
5 - Estrada Porto Novo - Ribeira Grande (com a floresta de Água ds Caldeiras e o Delgadinho)
6 - Ponto de canal
7 - Os montes de Ribeira da Torre (Topo de Miranda e Lombo de Pico)

Outras sugestões? Novo sete?

11 outubro 2007

Coisas escondidas de Santo Antão (I)

A ilha de Santo Antão é rica! Mas a sua riqueza está muitas vezes escondida, e só se ouve falar de montanhas, de mil pés (malditos bichinhos), de pobreza, de boa gente e pouco mais. Mas a ilha esconde um tesouro e quanto mais o conhecemos, mais há por descobrir. Assim, o Sint10, cumprindo a sua missão, reinicia esta semana com mais uma serie de pequenos artigos sobre aspectos menos conhecidos da ilha. E hoje, este post é sobre o café de Santo Antão.

Á semelhança da ilha do Fogo, Santo Antão produz o seu quinhão de café. Embora sem a expressividade da ilha do vulcão, Santo Antão pode gabar-se de poder beber café produzido no seu próprio torrão; gabar-se de também poder cultivar um dos produtos mais apetecidos em todo o mundo. As regiões altas de Lombo Branco, Pinhão, Monte Joana, Matinho de Leste (concelho da Ribeira Grande) e outras tantas no concelho do Paúl foram outrora locais de grande produção do café, sendo que ainda hoje se cultiva este produto, embora de forma menos intensa. Quem caminhar pelas entranhas de Monte Joana, Ribeirão Grande, Cidereira e outros locais do Planalto Leste encontrará ainda os famosos lédris (grandes espaços cercados por altos muros de pedra seca, onde se fazia a secagem do café). Hoje, muitos desses espaços encontram-se abandonados em ruínas ou então são usados como estábulos para animais. Mas quem ainda hoje quiser conhecer uma extensa plantação de café na ilha, aconselho-o a caminhar até Róiód, um pequeno vale, muito interessante, situado na parte mais alta de Pinhão (no cabeço). Com uma orografia que faz lembrar a famosa Cova, Róiód ainda conserva milhares de pés de café, e alguns casebres em ruinas. Vale a pena visitar o lugarejo, sobretudo se for na época das chuvas. Mas atenção, a que ter canela pa escanelá à pé.



"Crú doce, czid morgozo" (adivinha popular alusiva ao café)

Cafeeiros em Santo Antão
Cabo de Ribeira, Paúl
Fotos: BCN (Set. 2007)





04 setembro 2007

Sinta10 - o porquê do nome

Há dias alguém perguntou-me o porquê deste nome ao meu blog. Acredito que, à semelhança desse leitor, muita gente possa não compreender que raios fui inventar este termo. Quem é natural das ilhas de Santo Antão ou São Vicente certamente que não ficará de todo intrigado com este termo (pode soar mesmo muito familiar)
Pois bem, "sintadez" (nem sei como será a grafia exacta) era a designação por que os sãovincentinos alcunhavam os naturais de Santo Antão, com aquele ar trocista, tipicamente mindelense. Os santantonenses não gostavam desta designação, achando que era um termo muito depreciativo (aliás eu própio, quando fui pela primeira vez a São Vicente, ao chegar à casa da minha tia, a sua filha me perguntou: "bo ti te bem de sintadez?" Não gostei nada, e só queria voltar à casa (coisa de menino).
A pouco e pouco os nativos da ilha foram-se acostumando com o termo a ponto de ninguém mais se achar insultado com a palavra. Aliás, hoje em dia ela parece estar a cair em desuso.
Se eu chegasse hoje à casa da minha prima e ela me perguntasse se venho de sintadez eu teria respondido: "exactamente, venho de sintadez, a ilha nota 10, ondê que bo te sinti 10." (poxa, porque não pensei nisso quando era menino!!)
Mas uma coisa nunca percebi: - o que terá estado na origem da palavra e por que motivo os santatonenses não gostavam do termo. Alguém explica?

27 agosto 2007

Espera(cria)nça


Chuva atrasada
Campos ressequidos
Camponeses apreensivos
A ilha sem alegria
Meninos sem dzinfód: não há ténquin de bórr, nem cestos de pegá-saia, nem bónh ne rbêra, nem lim de pardal... (ainda)
"criança, não choras, um dia verás Cabo Verde florescer"


meninos da Ribeira do Poilão, São Lourenço dos Órgãos.
Foto: BCN

20 agosto 2007

Taça Independência - nota 10 para sinta10

Muito se falou sobre a participação de Sinta10 no torneio Inter-Ilhas que decorreu em São Vicente, de 9 a 18 de Agosto. Não obstante muita fala, muita perpexidade, pouco se disse e menos ainda se escreveu. A excelente campanha começou com uma vitória dos "verdes" sobre a ilha de Santiago. Quem diria? - há quem tivesse (pre)dito, garanto.
Só não pensaram nesta possibilidade alguns meios de comunicação social nacionais que, após tamanho atrevimento dos sinta10enses, calaram-se quietinhos, limitando apenas a fazer uma breve referência ao feito (?) [quando o fizeram]. Ou se algo escreveram, foi com muita leveza (não de espírito), como que sugerindo "chiiuu, mas não digam a ninguém"

Sinta10, cada dia mais 10, vai caminhando e triunfando de pés bem assentes na terra (nas rochas) , "para desespero dos que nos impedem a caminhada". Não, isso não, não digo isso, seria exagero, além do mais isso é plágio (e não quero ir para o Radar que, afinal, não está de férias!) Prefiro dizer "para silêncio dos que pensam(pensavam) que somos coitados (tanã, como diria um espertalhão sem nome, daqueles que abundam nos comments dos nossos jornais electrónicos)

Mechericos à parte, Sinta10 de facto honrou a ilha e acredito que terá reforçado o orgulho de ser de lá de quês s(c)inta 10. Só faltou mesmo ver a taça a atravessar o canal, mas também isso seria muito escandaloso, por isso nô contentá que 2º (ahahaha, lembrei-me da velha história da raposa e as uvas)
Agora dei conta de que, também eu, falei e não disse nada (acontece!)



31 julho 2007

Top de M'randa

Topo de Miranda (ou Top de M'randa num bom vernáculo) é a designação desta emblemática torre. A elevação, que originou o nome do vale da Ribeira da Torre, inspirou também um grupo de jovens das comunidades de Longueira a Chã de Arroz, que há pouco mais de um ano fundaram uma associação - a Associação "Top d'Miranda" - para encontrar parcerias para intervir em diferentes áreas como educação, cultura, desporto, saúde, habitação social e ambiente... e assim promoverem o desenvolvimento do vale.
Na semana passada ouvi, através da RCV, que a Associação estava a promover uma campanha de limpeza ao longo da ribeira. Boa!

Inspirando numa canção que não sei quem é o autor, digo:
"Ó Top de M'Randa (torre) bo quê mas grandi, bo pidi pa Deus, pa thcuva bem, pa que nos vale fica sempre verde...
Mas também para que os dirigentes deste país olhem mais para aquele que é um dos principais celeiros da ilha, e não só. Nem que for só um estradinha, pa ca pesá na.... (Lura ta completá)
Fotos: 1ª - NATO /2ª - BCN
Nota de rodapé: Na recente visita do grupo parlamentar do PAICV a Santo Antão, Kaká Barbosa e seus pares afirmaram/escreveram que Santo Antão é "Santanháco ilha". Bem, não sei se visitaram Ribeira da Torre, mas se por lá tiverem passado, certamente que terão dito que o vale é ... santanhaquinho!!! Só falta santanhacar a sua estrada de penetração.
Artigos relacionados:

09 julho 2007

Linga de Sintonton

Linga de Sintonton ê um sóbura, flód na moda de nh’ovô, e’m te uvil n’uvid el te zni’m séb” - Quem o diz é o agrupamento musical Cordas do Sol, no seu primeiro CD "Linga de Sintonton".
Mas este
post não pretende falar deste grupo que tanto tem divulgado, através da música, os costumes de SINTA10. Este post é dedicado à sua língua, ou melhor, linga.

De vez em quando dou uma passadinha ao
Dôs Dede de Conversa para ratchá um bocód de Sintonton (na sua forma mais pura). Confesso a minha dificuldade em, de vez em quando, ler sem desembaraço algumas passagens dos textos (logo eu, nicid, criód e feito moço na ilha).
A minha dificuldade não está na falta de conhecimento de determinadas expressões ali empregues mas sim na capacidade de ler com desenvoltura esta ou aquela cadeia de letras que dão forma às palavras (não estamos acostumados com essa escrita)

Durante muito tempo permanceu entre os habitantes da ilha um certo “complexo” que os impedia de ratchá sês linga onde quer que estivessem. Hoje creio que a realidade é bem diferente. Passo numa rua qualquer desta cidade oiço linga de sintonton, vejo alguém a falar para a TV, no Sal, em São Vicente, oiço linga de sintonton, enfim a variante da ilha agora não se confina a 779 km2. Será a globalização? Eu diria glocaboverdianização.
Creio que esta afirmação da linga de Sintonton entre seus pares muito se deve ao teâtro (Juventude em Marcha) e à música (Grupo Porto Grande) que entre os meados dos anos 80 e inícios de 90 tiveram a coragem (?) de a trazer à ribalta (sem complexos)

Abro aqui um parêntesis para falar um pouco desse grupo que era formado por santantonenses a residir em Mindelo, que fez bastante furor nestas ilhas com as suas canções 100% Sintonton e imbuídas de humor. Quem não se lembra por exemplo do Méria czê q bo tem, do "Tchuva de 84" e outras tantas composições a retratarem o quotidiano do Santo Antão profundo? Infelizmente o grupo entrou numa hibernação profunda sem antes ter gravado qualquer disco, que pena! Mais tarde surgiram outros grupos musicais que apostaram na linga de Sintonton: Cordas do Sol, Irmãos Unidos, Mix Cultura… todos já com CDs gravados
(Para fechar o parêntesis prometo futuramente um
post mais detalhado sobre o saudoso grupo Porto Grande)

Voltanto ao Dós Déd de Conversa, é deveras interessante ter um espaço onde apenas se escreve na Linga de SINTA10. Infelizmente, há muito que o Boltchôr Pólina não publica nada por lá (uquiê quê fet de bo, répés???)

22 junho 2007

Festival Nacional de Violino

O festival Nacional de Violino voltou à ilha. Tal como haviam anunciado os organizadores, o evento não ficou pela primeira edição que aconteceu no ano passado. A segunda concretizou-se no passado fim de semana. Ocasião para se reunir violinistas de todas as ilhas e da diáspora (Foram 25) numa confraternização excepcional, porém rara nestas ilhas onde "em cada 10 habitantes 11 toca um instrumento" (alguém escreveu isso algures, já não me lembro onde o li)
Para quem, como eu, fica rendido aos acordes de um violino a ecoarem a partir de um bar qualquer nesta cidade onde isso é coisa rara, assistir em dois dias as "serradas" de uma tropa de 25 viloinistas é verdadeiramente encantador. Infelizmente, por inerência desta minha condição de migrante, nunca pude desfrutar in loco desse encanto.

Defronte o emblemático edifício da Câmara Municipal da Ribeira Grande os homens de Rebeca arancam das cordas melodias muitas vezes nostálgicas capazes de evocar mil sentimentos nos presentes (e de repente me vem à cabeça a imagem, que vi na TCV, de duas senhoras de pés descalços na calçada, a deliciarem lapadas uma na outra, as sonoridades de uma melodia. A ternura com que as duas idosas davam os passos me fez pensar que no momento lhes passavam pela cabeça recordações de tempos outros, de serenata debaixo de janela, certamente)

Este ano o festival homenageou Nhô Joãozinho Alves, pai de uma turma de músicos. No Ano passado foi Nhô Kzick, que é aliás o patrono do festival. Com este evento que parece querer mesmo perpetuar, o falecido violinista das Fontainhas será sempre recordado. Mas também outros que já não estão entre nós serão sempre evocados, casos do Travadinha (também da ilha), Nho Raul de Pina, etc, etc.

Aos vivos o mister é PROSSEGUIR. Aos da ilha, que sejam os principais a divulgarem o certame:
Nhô Kzick (grupo), Lela de Teodoro, Ney Évora... este último na diáspora. Não pude assistir ao teu concerto na Praia mas ouvi dizer que foi um sucesso. Adelante!


07 maio 2007

Imaginação versus realidade

Desde criancinha (!) ouvia falar numa tal estrada Porto Novo-Janela. E morria de curiosidade, de vontade de conhecer esta tal estrada. "Ai, como deve ser interessante esse lugar/estrada, tanto se fala nela!" - exclamava o meu imaginário de menino sonhador que idealizava cada lugar, consoante o nome soasse nos ouvidos.
À medida que ia ganhando um pouco de juízo o cenário cor de rosa típico das criações fantásticas da infância dava lugar à uma "frustração" provocada pela realidade nua e crua (afinal Tarrafal de Monte Trigo não tem aquela paisagem bucólica que via nos meus sonhos acordados; e Topo de Corôa não parece com um rei" - eram frases como estas que expressavam a minha desilusão) Não é que esses e outros tantos locais não sejam paradisíacos, o menino sonhador é que elevava a fasquia das suas imaginações, criando cenários só possíveis em sonhos (agora tenho outros olhos)
E são estes (outros) olhos que agora me fazem delirar com um Tarrafal de Monte Trigo, um Topo de Coroa, um Vale do Paúl ou, claro, uma Ribeira da Torre.
Voltando à minha estrada Porto Novo-Janela: Um dia, já com mais juízo, dei conta de que as criações do meu imaginário baseavam-se, afinal, em projectos, em miragens. E foi assim durante muito tempo. Mas a esperança, que é sempre a última a morrer, veio dizer que não chegou a sucumbir-se. E lá vai a estrada, sobre rodas, desbravando montanhas, encostas e falésias. Ahh, passando até por túneis! Ê Dvera sim! desta vez ê dvera, a estrada Porto Novo-Janela vai ter 3 túneis, uma das quais chega a atingir os 300 metros.
Queria agora ser menino para saber que fantasias iria nascer na minha cabecinha ao ouvir falar nos túneis da estrada Porto Novo-Janela

fotos: Helder Medina

30 março 2007

A porta que um dia se fechou (à tranca)

A imagem mostra o extremo mais à Norte de Santo Antão. É nesta pontinha que se situa a vila da Ponta do Sol (antiga Maria Pia). Vila piscatória, muito limpa, conhecida pelos seus edifícios históricos, dentre os quais sobressai a magestosa Câmara Municipal da Ribeira Grande.

Mas, a importância desta urbe não se esbate nas questões estéticas. A vila encerra história, história de um povo trabalhador, humilde e acolhedor. Antigo "Quartel-general" dos governadores da ilha, foi também o "gózói" de Agostinho Neto, quando este foi deportado para Cabo Verde. E mais, foi das primeiras portas de entrada e saída de Santo Antão, com o seu porto da Boca de Pistola, por isso, considerado um símbolo: um símbolo da dor do "querer ficar e ter que partir" (foi dali que muitos dos nossos avós partiram rumo às roças de São Tomé); da fartura, pois era para lá que se rumava à espera dos barcos de milho, arroz... (lembre-se dos armazéns da Empa?); da penitência (alberga a Cadeia da ilha) enfim...

Ahhh, o papel da Ponta do Sol como porta de entrada de Santo Antão não fica por aqui. É(ra) lá que se situa(va) o aeródromo, uma pequena pista exclusiva para as avionetas tipo Twin Otter.

Com o trágico acontecimento dos finais dos anos 90, a pista deixou de receber aviões e a ilha ficou (apenas) a ver navios.
Mas a pista, coitada, está lá degradada, a ser cada dia engolida pelo mar bravio. Se acontecer uma catástrofe na ilha (Deus defendê) e hover necessidade de uma evacuação de emergência, pode ser que o pequeno Aeródromo Agostinho Neto não sirva para nenhuma operação. E não sei se os helicópteros da Nato irão estar prontos para socorrer.

De todo o modo, não acredito na sua reabilitação (nem exijo isso). Bem, ao menos, se houvesse um ilhéu, tipo Rombo, por aquelas bandas, eu iria ser o primeiro a gritar: - Aaaeeroporto!

Em tempo de Aeroportos Internacionais Sinta10 já não recorda a foma de um aviunzin!!!! Casta de destin ê êss!!?

10 março 2007

Infância na Ilha

Alegria de menino
Água na ribeira
Pirilau na mon
Trepadeira na rotcha,
Arranhos nos braços
Concursos de "fuga"
Ténquin de bórr
Tubos de papaeira
e... rostos alegres

26 fevereiro 2007

Roberto Duarte Silva em dinheiro

Uma homenagem merecida à uma figura que se germinou na ILHA

Assim como outras figuras incontornáveis da nossa história (casos de Amílcar Cabral, Baltasar Lopes da Silva, Eugénio Tavares, entre outros) chegou a vez de Roberto Duarte Silva emprestar o seu rosto à uma das notas em circulação no nosso sistema monetário.
O notável químico cabo-verdiano, que agora vai poder estar mais perto de nós (nos nossos bolsos, nas nossas carteiras, nas caixas dos supermercados, enfim em toda a parte) nasceu em Santo Antão nos idos anos de 1837. Aliás foi precisamente por isso que o BCV escolheu SINTA10 (a ilha e não o meu blog) para proceder ao lançamento oficial da nova nota, que ainda traz no reverso um trapiche, engenho típico da Ilha.
O BCV foi, quanto a mim, bastante feliz na escolha desta personalidade. É que, pese embora os seus grandes contributos para o avanço da ciência, sobretudo no ramo da Química orgânica, Silva permanece um tanto quanto desconhecido entre nós, habitantes desta tirrinha.
Ouvi falar pela primeira vez de Roberto Duarte Silva, tinha eu uns 10 ou 11 anos. Na atura prestou-se-lhe uma grande homenagem na vila da Ribeira Grande e a escola onde eu então estudava – a velhinha Escola Central – foi rebaptizada com o nome “Escola Central Roberto Duarte Silva”. E todos nós, putos ainda na escola primária, fomos “obrigados” a ficar a saber que no século XIX nasceu em Santo Antão um Senhor de nome Roberto Duarte Silva, que após a morte do pai foi admitido como aprendiz num boticário, e que mais tarde emigrou-se para Lisboa, onde estudou na Escola de Farmácia local; que partiu depois para a Ásia (Macau e Hong Kong) e viveu por lá alguns anos, até descobrir a França; que foi então na capital francesa que viria a desenvolver toda a sua actividade que o notabilizou como cientista, tendo recebido muitos prémios, até falecer no dia 8 de Fevereiro de 1889, com escassos 52 anos.
Duarte Silva nasceu numa casa lá na Rua de São Francisco, em Povoação. Também isso fiquei a saber na altura da homenagem, pois, assim como colocaram a placa na Escola Central, também na casa onde nasceu foi posto um letreiro que diz:

Aqui nasceu Roberto Duarte Silva
Notável Químico cabo-verdiano
1837-1889

Lembro-me de, ao intervalo, ir comprar bolinhos de 10 tostões nessa casa, na mercearia do Sr. Cipriano. A loja já lá não está, mas o letreiro sim! Só que… o edifício, uma construção de inegável valor patrimonial, está a cair aos pedaços. Uups!

23 fevereiro 2007

04 janeiro 2007

Quónd musquinha te'mjá...

Um comentário de um leitor sobre a situação actual da mandioca em Santo Antão fez-me viajar no tempo e recordar os tempos em que este produto abundava por todas as ribeiras, encostas e cabeços da ilha. Hoje, apenas sobrevive alguns pezinhos que vão travando uma luta impossível com a tão famigerada mosquinha branca. O mesmo caminho parece estar a seguir o coqueiro que vai caindo todas as folhas, ficando apenas o tronco erecto fitando os céus como que a praguejar.
À nostalgia desse leitor junto um prolongado suspiro : - Triste Sina!